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459 dias à deriva | 2025

Barquinhos de papel feitos de cartas antigas. Cada barquinho tem entre 2 e 7 cm.

“459 dias à deriva” é uma instalação composta por 459 barquinhos de papel, manufaturados a partir de envelopes de cartas antigas.

Cada barquinho representa um dia — entre idas e vindas —, em que vivi um relacionamento à distância, longe do meu companheiro. Marcados pela incerteza de uma imigração definitiva, esses dias condensam a duração da distância, a negociação entre destinos e o litoral invisível que, ao mesmo tempo, nos separava e nos aproximava.

Os envelopes que um dia levaram cartas de seus remetentes aos seus destinatários agora passam a representar, para mim, a dúvida da chegada. Como barcos que navegam sem saber se seguem ao norte ou ao sul, eles desenham um mapa invisível de deslocamentos. São embarcações frágeis, símbolo de todas as viagens — reais e imaginárias — , que precisei atravessar para manter um vínculo vivo. Construído a partir da dúvida que se acumulou ao longo desses 459 dias, o trabalho fala também sobre a persistência de viajar em um veículo de incerteza. “O amor é uma aventura obstinada. O lado aventureiro é necessário, mas tão necessária é a obstinação” (Badiou, 2009).

Ao agrupar os barquinhos, crio um mapa não geográfico, no qual tempo e afeto desenham uma cartografia baseada em unidades-dia. As fronteiras, para mim, eram os intervalos entre um avião que chega e outro que parte, entre uma mensagem lida e uma resposta atravessada, entre o aqui e o lá de duas pessoas que insistem em se encontrar.

“459 dias à deriva” inscreve-se, assim, como um exercício pessoal de cartografar o que normalmente não se cartografa: a duração da distância e o entre-estar de destinos. Entre o papel fino, sempre prestes a rasgar, e a imagem insistente da viagem, pergunto o que é, afinal, uma fronteira: uma linha de bloqueio ou um lugar de passagem.

EN
 

“459 dias à deriva” is an installation composed of 459 paper boats, handcrafted from envelopes of old letters.

Each boat represents one day — between departures and returns — during which I lived a long-distance relationship, far from my partner. Marked by the uncertainty of a definitive migration, those days embody the duration of distance, the negotiation between destinations, and the invisible shoreline that both separated and brought us closer together.

The envelopes that once carried letters from senders to recipients now come to represent, for me, the uncertainty of arrival. Like boats sailing without knowing whether they are heading north or south, they trace an invisible map of back-and-forth movements. They are fragile vessels, symbols of all the journeys — real and imagined — that I had to undertake to keep a bond alive. Built from the doubt that accumulated over those 459 days, the work also speaks about the persistence of traveling in a vehicle of uncertainty. “Love is an obstinate adventure. The adventurous side is necessary, but so is obstinacy” (Badiou, 2009).

By grouping the boats together, I create a non-geographical map in which time and affection draw a cartography based on day-units. The borders, for me, were the intervals between a plane landing and another taking off, between a message read and a reply sent across, between the here and the there of two people insisting on meeting.

“459 dias à deriva” thus becomes a personal exercise in mapping what is usually left uncharted: the duration of distance and the in-between state of destinations. Between thin paper, always on the verge of tearing, and the persistent image of travel, I ask what a border ultimately is: a line of blockage or a place of passage.

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